sábado, 25 de setembro de 2010

Podes sair


Ele deitado na cama e ela às voltas pelo quarto. As janelas estavam fechadas e apenas uns pequenos curiosos pontinhos de luz deixavam que a sombra deles se revelasse quase irreconhecível no chão. Acontece-se o que acontece-se, o panorama seria aquele. Ela de um lado para o outro a pensar para o chão e ele deitado na cama a olhar para o vazio. Sabem, nos filmes quando as coisas não correm bem e aparece alguém a falar sobre tudo? Era mais ao menos isso. Existia algo ali, entre eles que não estava esclarecido e ela queria tudo bem limpinho. Por isso ele arriscou e disse:

“Ele - Só quero que digas o que me tens a dizer. Fala.”

"Ela - Eu só quero que me percebas! Eu não quero um para sempre. Não precisa de ser para sempre sabes? Basta um toque, uma palavra, um sorriso. É isso que nós raparigas queremos. Não penses que depois de tantos anos nós ainda acreditamos no príncipe encantado e no «para sempre». Nós só queremos um aconchego, e umas palavrinhas queridas. Não fujo à regra só porque tenho aspecto de ser uma miúda mais forte, mas descontraída, mais vintage. Tenho coração e sentimentos como as outras, tenho poder de persuasão e ingenuidade também. E eu olho para ti e tu atrais-me. Atrais-me de uma forma tão diferente, assim como atraíste a tua namorada e agora me atraíste a mim. A cometer esta loucura. A vida é feita de loucuras sabes? Sem elas a minha vida era monótona e enfadonha. Mas eu olho para ti e só o facto de teres namorada me atrai. Ter aquele sabor de vingança e de traição de cada vez que me beijas. É assim que eu vivo, cada dia colecciono uma loucura, um pecado e penso como a minha vida tem um sabor especial por isso mesmo. Agora podes sair do quarto e ir ter com a tua namorada dizendo que te atrasaste na conversa com os teus amigos, ou ficas comigo esta noite e amanhã encontramo-nos secretamente. A escolha é tua, tens a ela, mas não te esqueças de mim, a escolha é sempre tua, nunca deixes que ninguém escolha por ti."

E ele levantou-se, agarrou na mão dela deu-lhe um beijo na testa e disse-lhe:

"- Nem sempre a escolha acertada é aquilo que nos dá o saborzinho na boca. Mas tu ficarás para sempre."

“Ela- O para sempre não existe, e eu para ti nunca serei para sempre, nunca digas sempre, o sempre não existe, a única coisa que existiu foi este momento, este presente, que ao saíres por essa porta vai ser passado.” Uma lágrima escorrega lentamente pelo o seu rosto.

Ele abriu a porta, e saiu. Foi um até já. Passado.

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